Por Soila Mar e José Miguel

_ Acontece que eu não sabia o que era um anticoncepcional. Pensa que eu nem sabia como ler o relógio. Então, era aborto atrás de aborto…
_ Lembro que tu já tinha feito nove.
_ E teria sido mais um naquele final de semana. Na sexta ele me falou: “borá lá na velha do papagaio?” Mas daí, bah, me deu uma que eu disse… não, se vou fazer então deixa me virar no final de semana e na segunda eu faço. Daí no sábado a menstruação veio… Porque, na verdade, eu nem sabia quando estava grávida ou não. Ele me perguntava: Renata, por que tu não está menstruando, cara? Eu não sabia. Eu não sabia o que era a menstruação, nada disso…. Naquele momento eu já tinha 15 anos e não sabia nada de nada.
_ E ele também não sabia. Ele não conhecia sequer o que era um anticoncepcional.
_ Então quando eu não menstruava a gente ia lá e fazia um aborto. Pronto. Somente uma vez que tive certeza, porque fiz teste e deu positivo. Nos demais, sei lá… ele dizia vamos lá e vamos lá. A cada dois, três meses… Era uma velha na zona sul, em Ipanema, que tinha um papagaio na porta. A gente ia lá e falava com ela e ela fazia, pagava uma grana e ponto. Hoje seria algo como 5000. E não era só nós… era todo mundo! Tinha uma lá e tinha outra numa rua lateral da Avenida Farrapos. Eu deitava lá, abria as pernas, ela enfiava um bico de papagaio na boceta, sabe? Abria… e isso doíííííaaaa…. e depois enfiava uma vareta de metal e fazia lá o que ela tinha que fazer… Era isso…
_ Daí foi que o Mimoso trouxe a Solia, já velha com seus 17 anos. E, no último desses abortos, ela me viu… Me viu chegar sangrando e eu expliquei o que acontecia.
_ Renata não fazia a menor ideia o que era um anticoncepcional, nunca tinha ouvido nem falar…. Eu tomava desde que cheguei a Porto Alegre. Quando cheguei aqui a minha tia me levou no médico, ele me receitou Nordete; mesmo anticoncepcional que dei pra Renata. Eu já sabia, sabia bem, porque desde os 9 anos de idade eu já tinha claro que não queria ser mãe… Depois disso, nunca mais teve essa da Renata precisar abortar.
Às vezes, parece que o Mimoso ainda está aqui. Soila o sente passar, o sente querer ridicularizar ainda as suas histórias. Mimoso ainda aqui, tentando algum controle, nessa casa que se desdobra em camadas de história no corpo e na visão da Soila. Ali o espaço para guardar os galos de briga, ali o rinhadeiro de treinamento, ali a quina de ferro da janela contra a qual Mimoso me bateu a cabeça daquela vez, ali aquela faca… ali aquele banheiro no qual fomos torturadas… ali o quarto dele, protegido das ameaças da rua, com a cama ainda feita. Conversamos ao redor da mesa de comer, entre o almoço abundante, o frio, os cigarros, as cordas grossas e brilhantes que tecem a Soila e a Renata em uma aliança de mais de 40 anos.
Anos depois, quiçá dez, quando o negócio estava estabelecido e novas mulheres, mais jovens, compunham a quadra e o grupo familiar, ele decidiu que havia chegado o tempo de se reproduzir através da Soila. Aquela que desde os 9 anos sabia que não queria ser mãe e que aprendera sobre anticoncepcionais nas revistas Capricho que seu tio brigadiano lhe comprava lá em Santa Maria. Eleita, Soila foi retirada do centro da cidade e da batalha e levada ao sítio da família, longe de tudo. Embaixo do nariz dele, sob a certeza de que a gravidez viria e seria só sangue do sangue do Mimoso, ele que a isolaria ali até o bem acontecer.
Foi lá que Soila aprendeu a fazer massagem em galos de briga, a cuidá-los e treiná-los, inclusive na piscina, pois na ideia de permanecer o maior tempo possível com ela no sítio, o homem levou também seus interesses principais. Tinha galos de briga, passarinhos exóticos em gaiolas e cavalos de corrida, incluindo o famoso Bico Branco que perdura até hoje em fotos e nas histórias de Renata… Tinha piscina, sol, ar fresco, espaço, cozinha, lenha para aquecer no inverno, uma kombi que de tão desarranjada ficou divertida, tudo. Tinha tudo e não precisava batalhar. Tinha tudo, menos uma farmácia por perto e modo seguro de sair.
Já ele ia e voltava bastante, a cuidar dos negócios da família em Porto Alegre. Foi um tempo sem trégua; tê-lo inteiro para ela. Ter de aguentá-lo todo dia, ouvi-lo todo dia, saber todo dia das suas manias de controle e sua teimosia. Aos finais de semana, de vez em quando, as gurias iam no sítio e aí era festa e descanso. Ela arrumou uma cambada de gatos, ela cuidava dos cachorros, ela começou a cultivar uma horta porque mexer na terra a acalmava. Em momentos de raiva e frustração, isso também permitia-lhe causar estrago.
Na peça de teatro Meretrizes, que entrou em cartaz ano passado e assim ficou até este ano, a história da Figueira Maldita faz o maior sucesso. Ganhou uma música própria nas mãos da compositora, pianista e professora Catarina Domenici. O público adora.
Foram meses infinitos dessa história até que um dia, furioso, o filho de Deus desistiu da missão e declarou que esta mulher, a da peça de teatro que vemos, a da música que ouvimos, a do livro que lemos, era uma Figueira Maldita, incapaz de dar fruto. Frustrado o experimento reprodutivo, reescrita a parábola do TodoPoderoso em ira porque a natureza não satisfez sua vontade, e de volta à quadra, entre colegas e trouxas, Renata e Soila riam às gargalhadas.
Em segredo, sob a terra, aquela Figueira vigiada pelo Filho de Deus, havia feito um pacto com sais minerais, com as raízes de um cacto selvagem e com o micélio de um fungo que pensávamos inútil para jamais dar fruto e, menos ainda, dar do seu sangue e da sua carne à persistência do desgraçado.
Nas panelas da cozinha do sítio, e infinitamente longe da imaginação e dos limites corporais do homem, ficaram escondidas durante todos esses meses as dezenas de cartelas de anticoncepcionais com as quais Soila amaldiçoou a Figueira. Quando soube do experimento que lhe esperava, ela lembrou à Renata daquele dia, dos primeiros momentos da sua aliança, e pediu retribuição. Na primeira visita, à menor distração dele, Renata levantou a blusa e entregou o carregamento salva-vidas.
P.S.: via Whatsapp, domingo 13 de julho de 2025, 17:22: Me lembrei de uma coisa, Miguel, que me veio na mente. Se Renata não tivesse me levado os anticoncepcional eu teria abortado pela 1ª x. Já sabia como fazer pelo relato das outras gurias que fizeram, com certeza! Fato.